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9.08.2011

"Mas a partir daquele dia 25 de Abril a mãe não voltou a fazer 'chui!'. Agora ela também rezingava, alto e bom som, que o ministro X era um parvo e que o secretário de Estado Y ficava ridículo com aquele capachinho na cabeça. Afinal não houve arrombamento de sangue, como dizia a Adélia. Ao fim da tarde, o pai levara-o pela mão até à rua, para ver as pessoas a rir e a chorar de alegria. Havia tanta gente na cidade que o pai acabara por o içar para os seus ombros: 'Olha bem para esta festa, meu filho. Nunca te esqueças deste dia.'" 

A Instrução dos Amantes, Inês Pedrosa

3.23.2011

A Palavra

"Talvez por isso não se casou, os homens querem conversa.
Nem todos: recorde-se de passagem aquele outro caso de um moço camponês, o Mudo, que andou tempos largos amargando a faina, atento a ordens, lamentos e cantares, mexendo a cabeça para sins e nãos, os ombros para dizer não sei, respondendo de sorriso ou aceno às saudações, adeus ó Mudo. E veio aquele dia igual aos outros dias em que os homens se sentaram de roda para matar o cansaço e a sede, o cântaro passando de mão em mão. Por acaso o Mudo seria o último, e o penúltimo alambazou-se em grandes goladas. Chateado, o Mudo disse: Não a bebas toda! Olhou-o a roda num silêncio embasbacado, por fim perguntaram, mas então tu não és mudo?, e por que raio não tinhas falado nunca? - e o Mudo explicou: Ora, nunca tinha precisado."

Mário Zambujal, À noite logo se vê

Talvez a palavra oral seja mesmo sobrevalorizada ... amanhã vou testar o potencial da linguagem corporal.

2.11.2011

Das Insólitas Formas de Amor

"Agora, Karenine já estava à espera na entrada, com os olhos pregados no cabide onde a coleira e a trela estavam penduradas. Tereza pôs-lhe a coleira e foram às compras. Comprou leite, pão, manteiga e, como sempre, um croissant para o cão. À volta, Karenine vinha ao meu lado, com o croissant na boca: todo inchado, olhava em torno de si, todo encantado por ser o alvo das atenções gerais e por saber que as pessoas passavam o tempo a apontar para ele.
Depois de chegar a casa, o cão ficava a espreitar à porta do quarto com o croissant na boca, à espera que Tomas se apercebesse da sua presença, se pusesse de gatas, começasse a rosnar e a fingir que queria tirar-lho. Dia após dia, repetia-se a mesma cena. Passavam uns bons cinco minutos a correr um atrás do outro pela casa toda, até que Karenine ia refugiar-se debaixo da mesa para devorar o seu croissant a toda a velocidade."

Milan Kundera, a insustentável leveza do ser

2.02.2011

Pensamento do Dia

"Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado."

Milan Kundera, a insustentável leveza do ser

Suponho que muitas foram as pessoas que se detiveram a pensar sobre este breve trecho ... A mim serviu-me de mote para este dia.

12.29.2010

Sinais de Fogo

"Fui para a casa de banho, a pensar naquela filosofia: "não te desgraces, nem a nós", como se desgraçar voluntariamente ou por inadvertência, ou por inesperada consequência, os outros fosse decididamente secundário. Tremi, reconhecendo naquilo o pior dos egoísmos, sem dúvida. O egoísmo da inocência, da ignorância, do conformismo, o egoísmo pavoroso dos que se querem, e querem os outros, inocentes, ignorantes, e conformados, cada um fechado sossegadamente na sua paz, e defendendo pior que com ferocidade, com bondade e até honesta doçura, as fronteiras invioláveis do seu primeiro, segundo ou terceiro andar, mais as pratas e os filhos, contra a invasão de qualquer grito de angústia."

Jorge de Sena, Sinais de Fogo

11.03.2010

"Da Liberdade de Pensamento e de Expressão"

"Existe a maior diferença entre julgar uma opinião como sendo verdadeira, visto que, com todas as oportunidades para a sua contestação, não foi refutada e presumir a sua verdade com o fim de não permitir a sua refutação.
(...)
A vantagem real que a verdade possui é que quando uma opinião é verdadeira pode ser sufocada uma, duas ou muitas vezes, mas no decorrer dos tempos encontrar-se-ão pessoas que tornarão a descobri-la até que alguma das suas reaparições seja feita numa época onde, devido a circunstâncias favoráveis, escape à perseguição e tenha oposto tal frente que resista a todos os ataques subsequentes tendentes a eliminá-la.
Dir-se-á que presentemente não condenamos à morte os introdutores de novas opiniões; não somos como os nossos pais, que chacinaram os profetas; construímos até mesmo sepulcros para eles.
É verdade que deixámos de condenar os hereges à morte; e o grau de aplicação penal que os sentimentos hoje tolerariam, possivelmente, mesmo contra as opiniões mais ofensivas, não é suficiente para as eliminar.
Não nos elogiemos, porém, considerando-nos já libertos da mácula da perseguição legal. Ainda existem punições por lei para a opinião ou, pelo menos, para a sua expressão, e a sua aplicação não é, mesmo nestes tempos, tão sem precedentes que leve a crer que algum dia não possam ser renovadas violentamente." 

             John Stuart Mill, Da Liberdade de Pensamento e de Expressão